Refluxo Gastroesofágico: Sintomas, Diagnóstico e Quando Considerar Cirurgia
Conteúdo revisado por Dr. José Américo Gomides de Sousa · CRM-MG 56433 | Cirurgia Bariátrica — RQE 60608 | Última atualização: Março 2026
A doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) é uma das condições gastrointestinais mais prevalentes, afetando milhões de brasileiros. Ela ocorre quando o conteúdo ácido do estômago retorna ao esôfago de forma recorrente, provocando sintomas incômodos e, em alguns casos, lesões na mucosa esofágica. Compreender os sinais, o diagnóstico e as opções de tratamento é essencial para evitar complicações e melhorar a qualidade de vida.
O que causa o refluxo
O refluxo gastroesofágico ocorre quando o esfíncter esofágico inferior — uma válvula muscular que separa o esôfago do estômago — não funciona adequadamente. Quando essa válvula relaxa de forma inapropriada ou apresenta fraqueza estrutural, o ácido gástrico sobe para o esôfago, que não possui a mesma proteção do estômago contra a acidez.
Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento da DRGE, incluindo obesidade, hérnia hiatal, tabagismo, consumo excessivo de álcool, gestação e uso prolongado de certos medicamentos. A alimentação também desempenha um papel importante: alimentos gordurosos, cítricos, chocolate, café e bebidas gaseificadas podem agravar os sintomas.
Sintomas típicos e atípicos
Os sintomas do refluxo gastroesofágico são classificados em típicos e atípicos. Reconhecer ambas as categorias é fundamental para um diagnóstico precoce.
Sintomas típicos
- Azia (pirose): sensação de queimação retroesternal, geralmente após as refeições ou ao deitar-se.
- Regurgitação: retorno do conteúdo gástrico ácido ou amargo à boca, sem esforço de vômito.
- Disfagia: dificuldade para engolir alimentos, que pode indicar complicações como estenose esofágica.
Sintomas atípicos
- Tosse crônica: tosse persistente, especialmente noturna, sem causa respiratória aparente.
- Rouquidão: irritação das cordas vocais pelo ácido, causando alteração na voz.
- Dor torácica: dor no peito que pode ser confundida com problemas cardíacos.
- Sensação de globo faríngeo: sensação de "bola na garganta" que não melhora com a deglutição.
- Erosão dentária: desgaste do esmalte dos dentes causado pelo contato frequente com o ácido gástrico.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da DRGE geralmente começa com a avaliação clínica dos sintomas. Quando os sintomas são típicos e respondem ao tratamento inicial com inibidores de bomba de prótons, o diagnóstico pode ser presuntivo. No entanto, em muitos casos, exames complementares são necessários para confirmar o diagnóstico e avaliar a gravidade da doença.
- Endoscopia digestiva alta: permite visualizar diretamente a mucosa esofágica e identificar esofagite, úlceras, estenoses ou esôfago de Barrett — uma alteração pré-maligna associada ao refluxo crônico.
- pHmetria esofágica de 24 horas: considerada o padrão-ouro para o diagnóstico, mede a exposição ácida no esôfago ao longo de um dia completo.
- Manometria esofágica: avalia a função motora do esôfago e a pressão do esfíncter esofágico inferior, sendo essencial na programação de tratamento cirúrgico.
- Impedanciometria: detecta episódios de refluxo não ácido, complementando a pHmetria.
Tratamento clínico
O tratamento inicial da DRGE envolve mudanças comportamentais e uso de medicamentos. As medidas não farmacológicas incluem:
- Elevação da cabeceira da cama em 15 a 20 centímetros.
- Evitar alimentação nas 2 a 3 horas que antecedem o sono.
- Redução do consumo de alimentos que agravam os sintomas.
- Controle do peso corporal.
- Cessação do tabagismo.
Os medicamentos mais utilizados são os inibidores de bomba de prótons (IBPs), como omeprazol e pantoprazol, que reduzem a produção de ácido gástrico. Embora eficazes no controle dos sintomas, o uso prolongado de IBPs pode estar associado a efeitos colaterais como deficiência de vitamina B12, magnésio e cálcio, além de maior suscetibilidade a infecções intestinais.
Quando considerar a cirurgia
A cirurgia antirrefluxo — chamada fundoplicatura — pode ser indicada nas seguintes situações:
- Pacientes com boa resposta ao IBP, mas que não desejam uso medicamentoso contínuo.
- Pacientes que necessitam de doses crescentes de medicação para controle dos sintomas.
- Presença de hérnia hiatal volumosa associada ao refluxo.
- Sintomas atípicos persistentes, como tosse crônica ou rouquidão, que não respondem ao tratamento clínico.
- Complicações como esofagite grave, estenose ou esôfago de Barrett.
A fundoplicatura pode ser realizada por via laparoscópica ou robótica. Na cirurgia robótica, a plataforma Da Vinci oferece visão 3D ampliada e instrumentos articulados que permitem maior precisão na reconstrução da válvula antirrefluxo, com menor risco de lesão a estruturas adjacentes.
A importância da avaliação individualizada
Cada caso de refluxo gastroesofágico é único. A decisão entre tratamento clínico e cirúrgico deve ser baseada em uma avaliação individualizada que considere a gravidade dos sintomas, os resultados dos exames, as comorbidades e as preferências do paciente. O acompanhamento com um especialista em aparelho digestivo é fundamental para definir a melhor estratégia terapêutica e garantir o controle adequado da doença.
Este conteúdo tem caráter exclusivamente educativo e informativo. Não substitui consulta médica presencial.